Em meio à divulgação de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, o diretor Peter Jackson confessou ter dirigido os dois primeiros filmes da série só para poder fazer o terceiro da maneira que bem entendesse. Christopher Nolan fez o mesmo de forma descarada em Batman Begins, e agora, com Batman – O Cavaleiro das Trevas, mostra ao público a sua grande carta na manga para a franquia do homem-morcego: o Coringa.
Fazer mais elogios (todos justíssimos) a Heath Ledger é chover no molhado. Há méritos além da interpretação, como na forma e no momento em que o personagem é apresentado. O Coringa surge quando Bruce Wayne cogita aposentar o ater-ego Batman frente ao sucesso do promotor Harvey Dent, que vem contabilizando vitórias contra o crime organizado sem precisar de máscara.
Justiça e Dent ficam sem ação ao se deparar com um vilão que, diferentemente dos criminosos até então, não tem nas pretensões materiais o seu ponto fraco. Surge do nada (suas constantes invenções sobre a origem das cicatrizes são um dos seus pontos mais divertidos) e se contenta em causar o caos para provar a tese de que qualquer pessoa se revela um pouco como ele – sádica, assassina e insana – com uma pequena ajuda. Até mesmo o promotor e o Batman.
Mas se o vilão é o que há de melhor no filme, também é nele que residem a maioria dos problemas da trama. E eles não são poucos. As peripécias do Coringa são tantas que é possível o espectador esquecer de duas ou três delas antes das luzes do cinema se acenderem. Em 150 minutos, o Coringa planeja e executa mais atentados que toda a história da Al Qaeda.
O exagero no poderio do vilão vai contra a lógica interna criada para Gotham City, mostrada desde o filme anterior como uma metrópole como qualquer outra, e não o cenário gótico e surreal dos filmes anteriores de Batman, onde tudo era possível e aceitável. Além de ser impossível fazer tanto em tão pouco tempo, uma cidade real jamais resistiria a tamanha onda de caos sem entrar em colapso.
E se a primeira vítima do Coringa é a verossimilhança, a segunda é o próprio Batman. O herói do segundo filme não demonstra ser o resultado da evolução da figura tão bem construída em Batman Begins, quando o vilão entra em cena, o herói se torna apenas um sujeito qualquer vestido de morcego, azucrinado incessantemente. Christian Bale, com ou sem fantasia, não é eclipsado apenas por Ledger, mas também por Aaron Eckhart, que interpreta com garra o promotor Dent e acaba sendo o verdadeiro antagonista do Coringa.
Teria feito bem ao filme excluir uma ou duas cenas de ação e dedicar alguns minutos a fortalecer seu protagonista. Nolan fez uma opção corajosa, mas um pouco suicida, de queimar muita munição em Batman – O Cavaleiro das Trevas, o que põe a própria série em xeque. Pela leitura mais do que batida de que o Coringa é uma versão distorcida do Batman, uma personificação daquilo que o morcego mais repudia, o que resta a um herói após enfrentar tal vilão?
Pois é, foram três anos até a administração municipal resolver espalhar lixeiras pela cidade. Não sei o motivo da demora, mas certamente não teve nada a ver com a estética do projeto. Porto Alegre foi contemplada com uma cápsula de Kinder Ovo gigante a cada esquina. A Nova Corja percebeu outra semelhança, que pode levar a uma associação perigosa com o vandalismo.
Preserve o patrimônio, não mate o Kenny
Mau gosto à parte, custava ao menos ter tirado o fundo do brasão da prefeitura? Ou ter aumentado um pouquiiiinho o branco dos lados? Só pode ser para ninguém querer roubar.
“Bom, pra começo de conversa é do Woody Allen, e um pessoal que eu respeito vem falando bem.” Toda crítica de O Sonho de Cassandra parte desse pensamento, e de texto em texto vai ficando evidente que ninguém gostou do filme, mas parece que todos os críticos estão com vergonha de discordar dos anteriores (alguém devia transformar isso em teoria do jornalismo). Quer um exemplo?
“O Sonho de Cassandra é tragédia grega total. Não, não é deprê!! Só que esqueçam o comediante Woody Allen, a gente não esboça um único sorriso durante toda a projeção, é uma história pra se acompanhar com os dentes trincados.
Vou escrever mais a respeito do filme em minha coluna em Zero Hora, mas pra quem fica na cidade no feriado, é a minha dica: mesmo quem não gosta de Allen, deve ir nem que seja para prestigiar a brilhante atuação de Colin Farrell.”
Martinha Medeiros não gostou do filme. Mas até a próxima semana ela vai pensar em algo que gostou e publicar uma coluna. Só num desespero assim para usar uma atuação do Colin Farrell como boi de piranha para alguma coisa na vida.
Ao filme: uma das únicas críticas negativas que tenho lido por aí é de que o diretor repetiu Match Point. Antes tivesse repetido. Embora a premissa seja um pouco semelhante, não tem nem comparação. O roteiro do primeiro filme é muito superior, especialmente na solução inteligente para a comédia de erros em que o protagonista submergia. É até surpreendente que o mesmo diretor tenha concebido as duas histórias.
Cassandra é óbvio do início ao fim (como bem reparou a Leti, na saída do cinema) e parece ser de propósito, já que o nome do filme é um trocalho do carilho com o nome da personagem da mitologia grega que recebeu dos deuses o dom da premonição. Mas, com o perdão da indelicadeza, se um suspense não te deixa tenso e nem te surpreende, pra que ele serve mesmo? Me atocharam que era uma reflexão sobre o peso da culpa sobre o indivíduo, mas isso é tão raso e previsível no filme como todo o resto.
Conselho: curioso sobre a incursão de Woody Allen no gênero? Pegue metade do dinheiro do ingresso de cinema e alugue Match Point. Ainda ganha uma dose de Scarlett Johansson de brinde.
Um parêntese: logo após o filme, li um livro em que o barco também se chamava Cassandra. Coincidência ou Cassandra é tipo a Layka dos barcos e esqueceram de me avisar?
No Fantástico de ontem, a apresentadora Patrícia Poeta saiu do estúdio para entrevistar Ronaldo sobre o lamentável barraco com três travestis e, assim, dar ao país uma aula de entrevista jornalística. Fez isso aplicando um princípio da profissão que, de tão banal, acaba esquecido e ficando de fora de muitas entrevistas: perguntar exatamente o que o espectador quer saber do entrevistado a respeito do tema em questão.
Para entender o quanto Patrícia foi brilhante, se questione sobre o que gostaria de saber de Ronaldo a respeito da tal noitada. Agora, faça o mesmo com o casal Nardoni e o caso Isabella. Por fim, veja se os seus questionamentos coincidem com o que foi perguntado respectivamente por Patrícia e por Valmir Salaro (leia as perguntas abaixo, se tiver saco), repórter que fez uma entrevista tão ruim que levantou suspeita de ter tido perguntas pré-aprovadas ou reprovadas. Ok, ok, são temais infinitamente dispares, mas o mais complicado deles não devia ser justamente o executado com maior precisão e competência?
Talvez falte a alguns profissionais a noção de que o mais importante em uma entrevista nesses moldes não é conseguir uma resposta, e sim ter a coragem de confrontar o interlocutor com a pergunta. A partir daí, cabe ao espectador julgar se a resposta parece sincera ou não. O compromisso do repórter é manter o diálogo similar a um jogo de pingue-pongue, e não a um jogo de vôlei em que o repórter levanta a bola para que o entrevistado corte (reparem os sintomas disso no número de afirmações do repórter na entrevista dos Nardoni, que se transformam em deixas em vez de perguntas).
O Ronaldo de ontem (que se saiu muito bem, diga-se), alfinetado pergunta a pergunta por Patrícia - ainda que com toda delicadeza e sorriso nos lábios -, deve ter tido saudade da época em que o máximo que podia acontecer quando recebia a apresentadora do Fantástico era ter de levá-la para passear de Ferrari.
Patrícia a Ronaldo:
Você pode contar pra gente o que aconteceu naquela noite?
Quando você abordou aquela pessoa na Barra da Tijuca, sabia que se tratava de um travesti?
Sabe por que eu pergunto isso pra você, Ronaldo? É que o travesti Andréia deu uma entrevista dizendo que você, no início, não sabia. Mas que quando ela chamou os outros dois travestis, você já sabia. É verdade ou mentira?
Ronaldo, você teve relação com os travestis?
Você usou drogas naquela noite?
Por quê (que Ronaldo quis sair do programa)?
Você estava sóbrio naquele dia, né? Ou tinha bebido um pouquinho?
Você se sentiu vítima de uma armação? De uma extorsão?
Você pretende entrar na Justiça? Processar um dos travestis?
Você acha que esse trabalho interferiu ou prejudicou seu trabalho como embaixador da Unicef?
Como você acha que os fãs reagiram a tudo isso?
Sempre surgem brincadeiras, você está preparado pra isso?
Você acha que, se fossem prostitutas, não teria sido esse escândalo todo?
Você acha que o que aconteceu nessa semana interfere na sua imagem? A curto ou longo prazo?
Você ficou triste com essa história toda? Chegou a chorar?
Quais são os seus próximos passos? Pretende voltar ao Brasil?
Valmir aos Nardoni:
Como é que vocês estão se sentindo depois da morte da Isabella, uma morte tão trágica?
Vocês estão sendo acusados de um crime grave? Como é suportar essa acusação?
A vida de vocês mudou desde aquele sábado.
Esse pré-julgamento (das pessoas, sem conhecer a família do casal) vem da onde? Da própria polícia? Quer dizer, vocês estão sofrendo por todos os lados...
A responsabilidade maior é da mídia, pra vocês.
A imagem de vocês no supermercado mostra uma família unida.
Como vocês se vêem na televisão?
Como vocês vêem essa acusação tão violenta da polícia, de que vocês mataram a Isabella?
Vocês acham que a polícia só investiga a vida de vocês, e não uma terceira hipótese. É isso? Uma segunda, uma quarta...
E vocês afirmam e reafirmam que uma terceira pessoa entrou e matou a Isabella. É isso?
Por que alguém agiria com tamanha brutalidade?
Quer dizer, você (Alexandre) perdeu uma filha de uma forma brutal. Você (Anna) perdeu uma amiga, que tinha como uma filha. O que passa na cabeça de vocês diante de uma acusação dessas? Vocês podem ir pra cadeia, pagar por um crime que vocês alegam que não cometeram.
Vocês passaram quase 15 horas em uma delegacia sendo interrogados. Como foi esse interrogatório?
O que era importante as pessoas conhecerem de vocês?
Você alguma vez bateu na sua filha?
Você não tem suspeita de nada?
Em que momento você mais sente falta dela, Alexandre?
Vocês estão sendo alvo de acusações graves. De que você (Anna) teria asfixiado e você (Alexandre) jogado pela janela.
O sonho dela era morar com vocês.
Vocês montaram o apartamento pra ela.
Várias testemunhas dizem que vocês não tinham uma vida harmoniosa, que viviam brigando. De onde essas testemunhas estão tirando isso?
Vocês têm como contestar essas testemunhas.
Você mantém a sua versão até hoje. Que alguém entrou e matou a sua filha.
A mãe da Isabella diz que você tinha ciúmes dela.
Vocês passaram uma semana na cadeia por um crime do qual dizem que são inocentes. Como foi essa semana? Vocês que nunca tiveram contato com esse mundo.
Vocês querem fazer um apelo? Para alguém quem sabe saiba de alguma coisa.
Hoje, o que vocês mais desejam?
A polícia vai apontando laudos que dizem que vocês são culpados. Como vocês se sentem diante de acusações dessas?
Vocês não podem sair na rua. Vivem dentro de casa.
Por que alguém teria tanta raiva, tanto ódio, de uma criança de cinco anos.
Se a polícia manter isso (o indiciamento) daqui pra frente, como vai ser a vida de vocês?
Vocês não mataram a Isabella.
O laudo aponta ter sangue no caso de vocês.
Vocês não usaram fralda para limpar sangue.
Outro dia o professor Luis Augusto Fischer comentava que o simbolismo tivera produção significativa no Rio Grande do Sul, provavelmente em razão do clima. "Afinal é complicado fazer poesia simbolista debaixo de uma palmeira na Bahia". Faz todo sentido, de modo que esse tempo langanhento de ontem e hoje parece impossibilitar uma reflexão bem-humorada sobre qualquer coisa. Mas, se ao mesmo tempo o cinza que esconde o sol faz finlandeses ignorarem seus índices de qualidade de vida e pularem pela janela, pelo menos gera alguma produção poética melancólica pelo mundo ou posts em blogs há muito adormecidos. Enfim.
... o ensaio da atriz Ludmila Dayer para o Paparazzo, talvez o melhor já produzido pelo site. Nem tanto pela modelo (juro), mas pelo resultado ao usar como locação os grafites do Hotel Copacabana, inferninho carioca. As fotos falam por si, mas vale a pena também ver o vídeo da produtora do site comentando que a idéia é antiga, só que eles precisavam de alguém que "segurasse a onda, e a Ludmila tem esse visual lôra, meio... meio inquilina do lugar". Dá-lhe.
Quarta-feira, Abril 30, 2008
Vários acertos e uma cagada gigantesca
O auê foi tanto sobre o desfile de ontem com Deborah Secco, Miss Brasil e etc que foi uma dificuldade ver como de fato havia ficado a camisa do Grêmio para o Brasileirão de 2008. O site do time ficou fora do ar até pouco tempo, mas voltou hoje à tarde e cá está a dita cuja:
Depois de um crime completo no modelo de 2007, a Puma traz mais acertos que erros neste ano. Aumentou novamente a listra preta, conseguiu boas soluções para as mangas e para o local do distintivo - dois problemas freqüentes em camisas listradas - e acertou na gola, onde a probabilidade de estragar tudo ao tentar inventar moda é sempre grande.
Tudo vai bem até você virar a camisa. Afinal, que merda é aquele espaço azul abaixo do número? Sim, criaram um lance diferente para a parte que fica dentro do calção, como se os torcedores fossem pagar R$ 159,00 para efetivamente jogar bola fardados ou para trabalhar em firma, únicas ocasiões em que colocar camisa pra dentro é admissível. A idéia remete à pior camisa de todos os tempos, o modelo Nike da Copa de 2002.
Entre mortos e feridos, a camisa ficou aceitável. Faltam agora jogadores para vesti-la.
Era exatamente a quantidade de dinheiro que tinha no bolso, às 13h30, ao ser abordado na parada de ônibus do lado de lá da passarela que dá acesso à rodoviária. O sujeito dos seus 20 anos me pedia R$ 1 para almoçar no restaurante popular ao lado.
– Nem perde teu tempo, cara. Tenho só um VT no bolso – girei a fichinha verde.
Escorou-se na mureta ao meu lado, pensou um pouco. Não alterou a voz.
– Veio de Caxias? – acenou com a cabeça em direção à bolsa adesivada pelo serviço de bagagens do Expresso Caxiense.
– A-hã.
– ... E não tem um real pra dar.
– Não. Não tenho – repeti, meio surpreso com a associação.
– Diz que não quer dar que é mais bonito. Dizer que não tem é que nem dar um tapa na minha cara – resignado, esbofeteou a própria face duas vezes. Continuei calado e ele foi saindo – Depois vira marginal e o cara reclama.
Caminhou até encontrar um casal como ele: maltrapilho e sereno no pedido de esmolas a quem se aproximava da parada. Pouco depois outro sujeito pediu "um minutinho da minha atenção", mas o ônibus soou o gongo, pedi licença e embarquei.
Sentado no ônibus, me ocorreu a resposta que queria ter dado:
"Ok, vamos falar a verdade. Eu tenho R$ 4 na carteira e mais algumas moedas. Ainda que eu quisesse te dar parte do dinheiro, não vou tirar a carteira da mochila porque tu pode passar a mão nela, sair correndo, e eu não poderia correr atrás por causa dessa mala. Agora é tua vez: o um real que tu quer é realmente porque está ‘morto de fome’ e quer comer ali no bandeijão? Porque se realmente fosse, eu até pensaria em dar."
Os franceses chamam isso de "espírito de escadaria". Com biquinho, esprit d’escalier. É quando a colocação perfeita para uma situação te ocorre quando já é tarde, quando tu estás descendo a escada no fim da festa ainda pensando no que deveria ter dito e na besteira que disse (suponho que as festas na França sejam sempre em andares elevados).
Ainda com os mesmos R$ 4,95 na carteira, fui abordado por outras três pessoas enquanto tomava um expresso e lia em um café na calçada na frente de casa. Disse "não tenho" em vez de "não dou" para todas. Se estivesse no meu dia mais caridoso, não teria R$ 1 suficiente para dar a todos e ainda tomar um expresso de R$ 2.
Chato desse achaque é que basta eu sentar na mesa de dentro do café, em vez da calçada, para a situação piorar em quantidade e insistência para quem senta do lado de fora. Há mais vigias há na minha rua, mais cartões de débito na minha carteira e mais trajetos motorizado com os vidros fechados. E isso só faz com que eles abram mais as portas do meu táxi para carregar a bagagem, ponham mais cartões de "me ajude, sou surdo-mudo" na minha mesa e, agora, se esbofeteiem diante das minhas mentiras deslavadas.
O expresso acaba com o pedido de dinheiro de um engraxate. Após pedir nas quatro mesas externas sem sucesso, ele abre a porta do café, adentra o ambiente com ar-condicionado e pede em outras cinco mesas, todas com semblantes perplexos com a presença indesejada ao lado de seus capuccinos. De saída, ainda pede dinheiro ou cigarro à moça do caixa, que o acompanha até a porta, surpresa com a "petulância" do pedinte, que parece nada incomodado.
Nem a balconista nem eu sabemos onde isso vai parar, só sei que quanto mais bolamos novas formas para driblá-lo, pior o problema fica.
Quinta-feira, Novembro 29, 2007
Pra que serve a internet
Pra proliferação inveterada de pornografia, claro, mas também para outras cousas. O Walter, blogueiro-chefe da Nova Corja, por exemplo, ao prever uma cruzada contra a Brasil Telecom para cancelar serviços telefônicos nunca requisitados, decidiu fotografar, gravar, filmar e publicar a peleia toda. O resultado está genial.
Enquanto uns sabem para que serve a internet, outros não fazem idéia. A Tati, por exemplo, funcionária da Brasil Telecom, não se deu conta de que o Orkut é público. Lá estão o telefone celular dela (que não é da BRT, diga-se) e a comunidade "Odeio cliente chato da BRT". Mas não fiquem de cara com os gostos da menina, ela não parece ter muito critério. Além de odiar os clientes da empresa, as comunidades afirmam que ela ama a mãe dela, o pai dela, pagode e a Xuxa. Ah, e dormir de conchinha.
Já que estamos falando disso, minha experiência de um mês com telefone fixo dessa empresa mostrou que ela é um lixo completo. Recém instalado, e sem ter divulgado o telefone para ninguém, fui incomodado TODOS os dias com vendas por tele-marketing, quase sempre pela manhã. Por alguns dias atendi a porcaria do telefone bêbado de sono, depois passei a nem me dar o trabalho.
Ou seja, o mailing deles é descaradamente vendido para quem quiser comprar. É ilegal, mas difícil de provar. A gota d'água foram duas tentativas de falso seqüestro, ameaçando matar o Caue (que chorava do outro lado da linha em um das vezes) se eu não fizesse isso ou aquilo. Temendo pela própria vida, resolvi encerrar a linha enquanto havia tempo.
Nenhuma dessas justificativas foram suficientemente convincentes para que o atendimento da empresa me deixasse cancelar meu telefone (e abençoado seja deus por ter me iluminado na hora de não aceitar um plano anual de fidelidade). Para conseguir cancelar, disse que estava de mudança para a Namíbia (tive que soletrar o país ao atendente). Alguns dias depois, ainda recusei a proposta de só receber ligações naquele aparelho gratuitamente durante um ano. Na Namíbia, o serviço não estaria sendo necessário, justifiquei.
Quanto mais fuçam nessa história da menina presa com homens, no Pará, pior ela fica. A última revelação é a de que não apenas a polícia inteira e uma juíza sabiam do ocorrido, mas sim toda a vizinhança. As celas eram vazadas para quem quisesse olhar e, segundo vizinhos, era possível ver os presos "se servindo" da menina antes de se servirem de comida. Como era obrigada a fazer sexo em troca das refeições, a menina pedia desesperadamente comida a quem passava na rua. Mundo cão é apelido.
Me parece que poucos países são tão competentes em produzir nos noticiários situações síntese de sua falência total quanto o Brasil. O caso João Hélio, por exemplo, era a perfeita síntese da banalização do crime, do desrespeito à vida, da necessidade do endurecimento de penas a menores por crimes hediondos. O caso dos adolescentes que espancaram uma doméstica com a justificativa de que achavam que ela era uma prostituta é outra pérola podre da nossa brasilidade.
Mas no caso do Pará, falta uma questão a ser abordada. Além de símbolo da falência do sistema carcerário e do desrespeito a todo e qualquer amparo legal à mulher e ao adolescente, se trata de um exemplo claro de caso em que servidores públicos precisam ser demitidos.
Banal, não? Pois isso não vai acontecer. Apesar de ter ficado suficientemente claro que a delegada Flávia Verônica Pereira e que a juíza Clarice Maria de Andrade são a síntese de tudo o que se pode fazer de errado em suas profissões, elas não serão exoneradas. Elas e seus comandados - policiais que, além de coniventes com a prisão, escalpelaram a menina e a largaram no porto com a orientação de que sumisse - continuarão servindo ao estado do Pará protegidos pela estabilidade concedida por lei a seus empregos. Na melhor das hipóteses eles serão afastados de suas profissões, poupando a sociedade das suas atuações, mas não de seus salários.
Será que nem por violação aos direitos humanos um servidor público pode ser demitido? Demiti-las não seria pena suficiente para essas pessoas, mas tenho convicção de que se elas soubessem que a gracinha que fizeram com a menina acarretasse imediata demissão e perda de qualquer benefício adquirido ao longo da carreira, o caso não teria acontecido.
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
Sobre focas, coelhos e bugios
Como era previsível, Coelho foi suspenso por 120 dias pelo chega-pra-lá que deu no colega de profissão que tentou passar pela sua zaga equilibrando uma bola na testa. Lamentavelmente, virou uma daquelas guerras de verbo-escatológicas entres os fãs da MALEMOLÊNCIA brasileira, do futebol MOLEQUE, contra quem acha que o objetivo do esporte é colocar a esfera dentro do retângulo da maneira mais eficiente possível, e o resto é firula. A mídia, nesse caso em particular 100% dela, se juntou ao primeiro grupo, constrangeu quem pensa diferente e pediu a cabeça do Coelho, que lhe foi entregue pelo STJD numa bandeja.
Minha opinião: ao contrário de uma série de dribles ousados e plasticamente bonitos, o lance da foca é uma idiotice porque é inútil. O próprio Kerlon disse que o seu SONHO é fazer um gol envolvendo o lance ou AO MENOS CAVAR UM PÊNALTI com ele. Ora, se fazer um gol com determinado fundamento é um sonho de tão improvável, porque não usar todos os outros fundamentos muito mais eficientes para isso? E outra: se a moral do lance é cavar faltas ou pênaltis, querem atochar que não há provocação envolvida? Apenas "futebol arte"? Mesmo que a mídia faça a heresia de comparar Kerlon a Garrincha, ele seguirá um esquenta-banco especialista em um lance que só serve para polemizar e garantir lugar em reportagens e mesas redondas. Futebol que é bom, necas.
Mas o que se passa pela minha cabeça, pela do Armando Nogueira ou pela do Coelho não poderia ter pesado no julgamento do STJD. Não tinha a mínima esperança que isso viesse a acontecer, mas se o tribunal tivesse feito seu papel de aplicar a justiça desportiva, teria fechado os olhos para o circo todo que se criou em torno do lance e inocentado Coelho ao menos por agressão. O lateral do Atlético-MG não gostou do drible e deu um encontrão no meia do Cruzeiro. O nome disso é atitude anti-desportiva, e não agressão, cuja pena é bem mais rigorosa.
Com o corpo todo exposto enquanto equilibrava a bola na cabeça, Coelho teria tempo de ter-lhe dado um chute, um soco, um tiro, o que fosse se de fato quisesse agredir o jogador. Fez apenas uma obstrução de forma ríspida que de modo algum pôs em risco a integridade física do colega. Se a bola estivesse no chão em vez de na cabeça, era cartão amarelo e segue o baile.
Tentei encontrar ao menos umas comunidades no Orkut em favor do tal Coelho, mas, pelo jeito, além de tudo ele é um péssimo lateral e os atleticanos parecem estar pouco ligando para o gancho que o cara tomou. De mim, ele ganhou o respeito.
OBS bem nada a ver: Eu ia ilustrar esse post com uma daquelas fotos divulgadas por ONGs de uma foquinha tomando machadada de um lenhador canadense qualquer, mas vendo as imagens achei de um mau gosto atroz e lembrei que odeio ver bicho sofrendo. Em vez disso, vai então nesse site, compra um chaveirinho e ajuda esses caras. Conheci o trabalho deles numa palestra e acho vale a pena dar uma grana para financiar quem tem mais boa vontade do que tu. Ah, e eles estão processando o Ibama, o que é um bom sinal de não-peleguismo. Por mais contraditório que pareça, o Brasil é tão surreal que fundar ONG muitas vezes é apenas uma maneira de mamar na teta do governo.
Seguido cumprimento conhecidos com a saudação acima, e já estou acostumado a ninguém me entender. Mas sigo na esperança de descobrir, com o bordão, alguém que também tenha sido viciado em Animaniacs, um dos desenhos mais geniais de todos os tempos, perdido em uma penca de desenhos bacanas e subestimados da Warner, como Freakazoid, Pink & Cérebro e Tiny Toons.
Animaniacs era anárquico, politicamente incorreto e surpreendentemente educativo. Ou alguém sabe uma maneira melhor de apresentar Beethoven às crianças do que mostrá-lo sendo sacaneado por seu problema de audição durante um episódio inteiro? O desenho também ensina que Einsten descobriu a fórmula da relatividade (e = mc2) ao ver os Animaniacs escreverem "acme" ao contrário e confundir o "a" com um "2". Cantorias com mapas apresentando países ou estados também eram tradicionais.
Pois bem, navegando no YouTube lembrei de outra pérola dos Animanics: a Roda da Moralidade. Como o desenho não tinha moral alguma, Yakko era obrigado, no fim de alguns episódios, a girar uma roda, que imprimia a moral da história pronta para ele e seus irmãozinhos Wakko e Dot. Não foram muitos os episódios com a roda, e ainda aconteciam coisas absurdas de vez em quando como a roda parar em uma bigorna e eles terem de sair correndo por motivos óbvios.
Quase tão boas quanto as morais, eram as intromissões do Wakko quando o Yakko dizia "e agora é hora de" e completar "girar a Roda da Moralidade". O "e agora é hora de" precedeu absurdos como:
"Fazer os censores da Fox Kids chorarem!"
"Fazer bolhas com o próprio cuspe!"
"Colocar pepinos nos ouvidos!"
"Tirar sarro do Disney Channel!"
Graças ao YouTube, aí vão lições que só os Animaniacs ensinam:
"Na primeira coisa em que você fracassar, culpe seus pais."
"Não coma de boca cheia."
"Moradores de casas de vidro devem apagar a luz antes de se trocar."
"Lave, enxágüe e repita a operação (ok, o pessoal não conseguiu nada melhor a tempo)."
"Gambás têm bolsas como cangurus."
"Elvis vive em nossos corações, em sua música e em um trailer estacionado na periferia de Milwaukee."
"Nunca pergunte do que os cachorros-quentes são feitos."
"A resposta, meu amigo, está soprando no vento. Exceto em New Jersey, onde o que está soprando no vento tem um cheiro estranho."
E a melhor de todas:
"Você pode ensinar truques novos ao seu cachorro, mas nunca poderá ensinar Madonna a atuar."
Uma hora vão lançar um DVD disso, aí sim ninguém vai entender minhas piadas.
Uma entre tantas coisas que me decepcionam no Brasil é a capacidade da horda chamada opinião pública de se mobilizar em torno da própria hipocrisia. Ela consegue reconhecer e aplaudir uma atitude correta, mas não é humilde o suficiente para afirmar que jamais faria o mesmo.
Óbvio que, se esse fosse o procedimento adotado por 96% dos brasileiros, o caso desse pai não seria tema de reportagem. Mais próximo do raciocínio real do brasileiro em situação semelhante, é o provocativo e lúcido artigo do colunista André Petry na Veja de algumas semanas atrás, que está transcrito aí embaixo.
Confrontada pela verdade, a horda de hipócritas se manifestou com ainda mais fúria. Na seção Cartas da semana seguinte, Veja relata que o artigo causou uma avalanche de e-mails condenando o colunista. 96% deles, provavelmente.
Você entregaria seu filho?
“Você, leitor, entregaria seu filho, que cometeu uma violência covarde, para coisificar-se na barbárie das prisões brasileiras?”
"Tchau, filho." Foi assim que Ludovico Bruno se despediu do filho Rubens, de 19 anos, que ajudou a espancar a doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, no Rio de Janeiro. Com o filho partindo a bordo de um carro de polícia, Ludovico, o pai, chorou, passou a mão na cabeça, zanzou desorientado e acabou dando uma declaração que provocou espanto mais ou menos generalizado. Em defesa do filho, disse:
- Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter presas crianças que estão na faculdade, estudando, trabalhando.
Ludovico Bruno está errado? Ludovico Bruno está moralmente obrigado a defender a prisão do filho? Ludovico Bruno deve colocar a exigência de justiça acima do sentimento paterno? A resposta: Ludovico Bruno está perplexo - e que atire a primeira pedra o pai que, numa situação parecida, não caísse na perplexidade e vacilasse entre defender o filho e a justiça. Porque, no Brasil, há fortes razões para vacilar.
A primeira, a primeiríssima, é que estamos no país da mais amarga impunidade. Se - Ludovico deve se perguntar - ninguém vai preso, se o assassino confesso da jornalista Sandra Gomide está livre, se os senadores debocham do país com explicações vergonhosas sobre seus milhões aos borbotões, se as quadrilhas do mensalão, dos vampiros, dos sanguessugas estão todas livres e leves e soltas, por que o meu filho deve ser preso? Por que só o meu filho?
Eis a distorção que a impunidade causa. Claro que não há dúvida sobre a necessidade, a correção e a importância da punição a Rubens Bruno e a seus comparsas por espancarem covardemente uma mulher indefesa numa parada de ônibus. Isso não está em discussão. O que está em discussão, o que deve resultar em reflexão, é a perplexidade de um pai mediante a iminente punição de seu filho num país em que a impunidade é uma regra repulsiva. E, mesmo aceitando a punição, qual a punição adequada? Cadeia?
Eis a segunda razão para a perplexidade de Ludovico: prisão para quê? Se - Ludovico deve se perguntar - ninguém vai preso, se as prisões do país são desumanas, por que o meu filho, só o meu filho, deve ser enviado a essa sucursal do inferno? É com prisões assim, transbordando de crueldade e rebaixando homens a animais, que se quer pais entregando filhos criminosos à polícia em nome da justiça? Você, leitor, entregaria seu filho, que cometeu uma violência covarde, para coisificar-se na barbárie das prisões brasileiras?
A sociedade brasileira está se especializando em hipocrisia. O espancamento da doméstica produziu a mais recente: solidarizar-se com ela é imperioso, mas, em paralelo, xingar o pai pela defesa do filho é uma hipocrisia - em um país, repita-se, em que se combinam impunidade debochada e prisões desumanas.
Ainda que punição boa seja sempre para os outros, para o filho dos outros, é preciso reconhecer que só seremos um país capaz de se espantar com a declaração de Ludovico no dia em que criminosos, de gravata ou de chinelo, acabarem na cadeia pelos crimes que cometerem - e a cadeia for um local de punição, sim, mas não de selvageria.