Segunda-feira, Julho 16, 2007

Show da vida

Uma entre tantas coisas que me decepcionam no Brasil é a capacidade da horda chamada opinião pública de se mobilizar em torno da própria hipocrisia. Ela consegue reconhecer e aplaudir uma atitude correta, mas não é humilde o suficiente para afirmar que jamais faria o mesmo.

No Fantástico do último domingo, um exemplo clássico. Após reportagem sobre o pai que resolveu não pagar a fiança do filho que havia sido preso por dirigir alcoolizado, um breve paralelo com o caso dos adolescentes que surraram uma doméstica e a enquete: na mesma situação, você pagaria a fiança do seu filho ou o deixaria na cadeia?

Resultado: 96% deixaria o filho na cadeia. Sei.

Óbvio que, se esse fosse o procedimento adotado por 96% dos brasileiros, o caso desse pai não seria tema de reportagem. Mais próximo do raciocínio real do brasileiro em situação semelhante, é o provocativo artigo do colunista André Petry na Veja de algumas semanas atrás, que está transcrito aí embaixo.

Confrontada pela verdade, a horda de hipócritas se manifestou com ainda mais fúria. Na seção Cartas da semana seguinte, Veja relata que o artigo causou uma avalanche de e-mails condenando o colunista. 96% deles, certamente.

Você entregaria seu filho?

“Você, leitor, entregaria seu filho, que cometeu uma violência covarde, para coisificar-se na barbárie das prisões brasileiras?”

"Tchau, filho." Foi assim que Ludovico Bruno se despediu do filho Rubens, de 19 anos, que ajudou a espancar a doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, no Rio de Janeiro. Com o filho partindo a bordo de um carro de polícia, Ludovico, o pai, chorou, passou a mão na cabeça, zanzou desorientado e acabou dando uma declaração que provocou espanto mais ou menos generalizado. Em defesa do filho, disse:

- Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter presas crianças que estão na faculdade, estudando, trabalhando.

Ludovico Bruno está errado? Ludovico Bruno está moralmente obrigado a defender a prisão do filho? Ludovico Bruno deve colocar a exigência de justiça acima do sentimento paterno? A resposta: Ludovico Bruno está perplexo - e que atire a primeira pedra o pai que, numa situação parecida, não caísse na perplexidade e vacilasse entre defender o filho e a justiça. Porque, no Brasil, há fortes razões para vacilar.

A primeira, a primeiríssima, é que estamos no país da mais amarga impunidade. Se - Ludovico deve se perguntar - ninguém vai preso, se o assassino confesso da jornalista Sandra Gomide está livre, se os senadores debocham do país com explicações vergonhosas sobre seus milhões aos borbotões, se as quadrilhas do mensalão, dos vampiros, dos sanguessugas estão todas livres e leves e soltas, por que o meu filho deve ser preso? Por que só o meu filho?

Eis a distorção que a impunidade causa. Claro que não há dúvida sobre a necessidade, a correção e a importância da punição a Rubens Bruno e a seus comparsas por espancarem covardemente uma mulher indefesa numa parada de ônibus. Isso não está em discussão. O que está em discussão, o que deve resultar em reflexão, é a perplexidade de um pai mediante a iminente punição de seu filho num país em que a impunidade é uma regra repulsiva. E, mesmo aceitando a punição, qual a punição adequada? Cadeia?

Eis a segunda razão para a perplexidade de Ludovico: prisão para quê? Se - Ludovico deve se perguntar - ninguém vai preso, se as prisões do país são desumanas, por que o meu filho, só o meu filho, deve ser enviado a essa sucursal do inferno? É com prisões assim, transbordando de crueldade e rebaixando homens a animais, que se quer pais entregando filhos criminosos à polícia em nome da justiça? Você, leitor, entregaria seu filho, que cometeu uma violência covarde, para coisificar-se na barbárie das prisões brasileiras?

A sociedade brasileira está se especializando em hipocrisia. O espancamento da doméstica produziu a mais recente: solidarizar-se com ela é imperioso, mas, em paralelo, xingar o pai pela defesa do filho é uma hipocrisia - em um país, repita-se, em que se combinam impunidade debochada e prisões desumanas.

Ainda que punição boa seja sempre para os outros, para o filho dos outros, é preciso reconhecer que só seremos um país capaz de se espantar com a declaração de Ludovico no dia em que criminosos, de gravata ou de chinelo, acabarem na cadeia pelos crimes que cometerem - e a cadeia for um local de punição, sim, mas não de selvageria.


[por Caue] [1:06 AM]


Quarta-feira, Julho 11, 2007

Sindicalismo experimental

Copiando uma porção de empresas cheias da grana, digo, de criatividade, foram espalhados por Porto Alegre outdoors com um código de barras e a contagem regressiva "Faltam X dias". Ontem a imensa curiosidade dos porto-alegrenses foi sanada:



Pois é, o Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre, aquele pessoal famoso por não aceitar trabalhar em domingos e feriados dejeitomaneira, fez 75 anos. Como público-alvo de tão genial ação de marketing, questiono:

...e o queco?

[por Caue] [12:58 AM]


Sexta-feira, Julho 06, 2007

D'oh!



No site oficial do filme dos Simpsons dá pra fazer o seu alter-ego de quatro dedos. O meu, no caso, não ficou muito legal (prefiro a versão South Park) porque não há muitas opções de barba e de boca. Acabei com o modelo Homer Simpson de falta de gilete mesmo...

Falando nisso, pela divulgação até agora o longa-metragem promete ser boa coisa. Mas a versão brasileira com certeza sofrerá com a perda do dublador do Homer. Pena mesmo. Nos Estados Unidos, onde esse lance de dublar desenho é levado tri a sério, os donos das vozes dos Simpsons são milionários e já fizeram até greve certa vez.

[por Caue] [1:57 AM]


Quinta-feira, Julho 05, 2007

Teste final para a imortalidade

O Grêmio gerou polêmica ao cogitar para a presidência do clube um administrador conhecido no Rio Grande do Sul. Não só apóio como sugiro que ele implemente suas mais bem sucedidas experiências de gestão no tricolor da Azenha. Seguem sugestões:

* Montar um plano de demissão voluntária e oferecê-lo a atletas como Tuta, Amoroso e Schiavi. Ao fim do plano, continuar com o elenco inchado.

* Estabelecer um contrato inquebrável que autorize a cobrança de ingressos para entrar no Olímpico pelo pórtico, e não investir nunca mais nenhum pila nos demais portões para o estádio. Não sem antes deixar brecha contratual para culpar gestões seguintes quando começarem a cobrar também para que os torcedores saiam pelo pórtico.

* Contratar um centroavante pagando-lhe mais do que todo o restante do elenco somado. No contrato, estabelecer que o jogador pode ficar 15 anos sem marcar gols com a desculpa de que, com ele em campo, todos os demais jogadores jogarão muito bem e marcarão muitos e muitos gols. Se outro jogador recusar proposta semelhante e for para outro clube mesmo assim, chorar para todo sempre.

* Vender boa parte do elenco e até do estádio para um clube-empresa onde possa trabalhar depois.

* Conceder aumento de salário para todo o elenco e, em seguida, mudar de idéia de forma que, quando os jogadores ingressarem na Justiça, o Grêmio tenha de pagar uma folha como se tivesse 12 em vez de 11 jogadores.

* Transferir o Grêmio para um mercado futebolístico em crescimento com a Ásia podendo, nos anos seguintes, competir campeonatos internacionais com outros clubes do Rio Grande do Sul em condições desiguais.

* Se questionado por qualquer uma dessas medidas, se abster de comentários pois não trabalha mais com futebol. Assumir, então, a direção de qualquer outra coisa, como uma companhia de balet clássico ou um time de punhobol. Sempre com a mesma eficiência.


[por Caue] [3:46 AM]


Quarta-feira, Julho 04, 2007

Punch! Punch!

Eu que achava que nunca na vida eu ia rir do Dilbert...



Surpreendente. Mas encerrada a exceção, voltemos a regra: quadrinhos legais mesmo é aqui ou aqui. Hors concours aqui e genialidade absoluta aqui.
[por Caue] [3:09 AM]


Segunda-feira, Julho 02, 2007

Cotas no país da tenteada

Mais cedo e de forma mais tosca do que eu imaginava, as cotas chegaram à UFRGS. E cotas não exigem um post, mas um verdadeiro tratado. Então puxa o teu banquinho...

Antes de analisar quem seriam os beneficiados pelo sistema de cotas, cabe apontar para os prejudicados. Quem são? Bem, os mesmos que marcham TODAS as vezes que ministros ou parlamentares têm uma idéia: os membros da classe-média. Dizer que as universidades públicas estão tomadas de gente que não precisa fazer o curso de graça é uma meia-verdade maldosa.

De fato elas estão tomadas de gente que fez os ensinos Fundamental e Médio em escolas particulares, fizeram cursinhos e conseguiram entrar nas federais. Poderiam pagar faculdades privadas? Provavelmente sim, mas com dificuldades. Pegando um exemplo clássico de classe-média: em família com rendimento de R$ 5 mil, será que não pesa destinar R$ 1 mil mensalmente (e há cursos mais caros que isso) para a universidade? E se forem dois universitários na família? Lá se vão 40% dos salários da família para bancar as universidades privadas e milionárias.

Para se contar aquela meia-verdade maldosa por inteiro, é preciso considerar que o clássico universitário de federal não é pobre, mas tampouco é rico. Arrisco que é insignificante o número de famílias com rendimentos superiores a R$ 10 mil mensais que têm filhos em federais. Na classe social mais abonada, eles pagam para não se incomodar com vestibulares megaconcorridos e universidades sem estrutura. E fazem bem. Outra parte dessa meia-verdade, é que o Estado nada deu até ali para o aluno classe-média que chegou até a universidade federal. Ele estudou os ensinos anteriores em escolas privadas não porque gosta de gastar dinheiro à toa, mas porque o ensino na pública é sucateado.

Assim como um pai classe-média mata um leão por dia para manter o filho na escola particular, paleia também para pagar um condomínio porque o Estado não lhe dá mais segurança de qualidade. Peleia para pagar um plano privado porque o Estado não lhe dá mais saúde de qualidade... Agora chega a boa nova de que o Estado lhe cortou mais um dos serviços que é obrigado a fornecer pela Constituição Federal. O sistema de cotas vem decretar que a única relação entre a classe-média e o Estado se dará por meio de impostos da primeira para o segundo. E, como sempre, a classe-média pagará calada.

Um comentário bem particular agora (tão particular que está em itálico): pelos motivos já citados - especialmente pela afronta que faz à Constituição -, a implantação do sistema de cotas da maneira como foi imposto é, sim, bom motivo para uma greve de estudantes, e não aquela palhaçada que se viu na USP com desdobramentos ainda mais constrangedores na UFRGS.

Mas voltemos aos beneficiados pelo sistema, agora:

Por incrível que pareça, não sou de todo contra o sistema de cotas. Sou contra esse modelo impositivo e inconstitucional que está aí. A parte racial do modelo é uma sandice sem precedente. Parafraseando o Lula, "nunca na história desse país um governo" deixou legado tão perigoso para o outro quanto esse de dividir os brasileiros entre brancos e negros. Mas, pelo jeito, a população negra está disposta a trocar essa definição perigosa entre raças por vagas em universidades, o que é legítimo e eu respeito sem ironia alguma. Resta-me apenas discutir o mérito da questão.

Para se admitir a cota, deve-se admitir a necessidade dela. E para isso, no caso das cotas raciais, é preciso concluir que os negros são menos aptos que os brancos para conseguir uma vaga por serem negros e seus concorrentes brancos. Se negros e brancos não chegam ao vestibular em igualdade de condições e isso não tem relação direta com as suas raças (partindo do pressuposto que seria possível dividir o país em dois, mas vamos abstrair essa questão), há uma distorção séria na cota racial que não pode ser desconsiderada. O negro não compete em iguais condições porque é pobre, e não porque é negro. Essa frase é tão óbvia que me constrange ter de escrevê-la. Mas para o governo, pelo jeito, não é.

Sobre as cotas para estudantes de escolas públicas, há um ponto que geralmente passa batido nas reflexões sobre estudantes de escolas particulares em universidades públicas: o papel do cursinho. Pela altíssima concorrência, é ele o grande definidor de quem vai passar ou não em universidades públicas, e raramente a escola cursada. Como é impossível financeiramente que a maioria dos alunos de escolas públicas tenha acesso a esse tipo de preparação, há de se estudar uma maneira deles concorrerem de igual para igual a vagas escassas com as das federais.

Cria-se, portanto, uma reserva de vagas a alunos de escolas públicas. Pode ser uma boa solução, mas por que reservar a vaga simplesmente pelos rótulos das pessoas (negro de escola pública - 15%, branco de escola pública - 15%) e não pelos seus méritos? Por que não reservar as vagas para quem teve os melhores desempenhos acadêmicos na escola pública ao longo do Ensino Médio? Por que, uma vez na vida, não se dá privilégios a quem estuda e, portanto, fez por merecer? Se houver mais alunos academicamente aptos para concorrer a essas vagas, ótimo. Eles disputam entre si e, se mesmo assim não entrarem, fazem vestibular.

Mas o cenário é tão surreal que na UFRGS será feito o contrário. Está na Zero Hora de hoje que a universidade estuda formas de conter a "distorção" do inevitável bom desempenho pelo novo sistema de colégios públicos de excelência acadêmica como o Colégio Militar, que aprova na UFRGS assombrosos 40% dos seus alunos. Ou seja, a excelência acadêmica será PUNIDA. Pelo novo sistema de cotas, o aluno TEM de ser, além de escola pública, um sujeito despreparado. Pára o mundo que eu PRECISO descer.

É claro que o que eu propus dois parágrafos acima nunca será implantado. Isso exigiria um acompanhamento de no mínimo três anos, e o governo também teria de corrigir as distorções de ensino entre um colégio público e outro. É muito trabalho. Ou melhor, é simplesmente trabalho. Seria exigir muito de um país que baseia todas as suas medidas em educação na base da tenteada. Se deu certo, deu. Se não deu, paciência, a gente tenta outra coisa nesse ou em outro governo.

Quer um exemplo? Se implantassem primeiro as cotas para escolas públicas, demoraria apenas um singelo aninho para identificar quantos negros entrariam automaticamente na universidade e, a partir daí, verificar se o sistema de cotas raciais seria mesmo necessário para abranger os negros. Mas um ano já é um certo esboço de planejamento, palavra proibida no país onde a tenteada é livre. Mais que isso: é regra, ainda que fira a Constituição.

[por Caue] [4:30 PM]



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